terça-feira, 14 de julho de 2009

Estações

Foto: Kalu Brum

Às vezes me falta ar. Sou assim de cor vermelha, passional até os fios de cabelos etéricos. Queria, simplesmente, algumas vezes, ver a vida passar e não agir com a paixão que me move. Ver uma formiga a subir na camisa de um desconhecido e simplesmente não retirá-la de lá. Mas eu não consigo.

Talvez dê importância demais para minhas conquistas e queira oferecê-las a preço baixo, esquecendo-me que elas são pérolas tecidas com os fios de cornicópia de minhas lágrimas.

Cada alma deste mundo está em um diferente estágio de consciência. E todos estão em seus lugares certos. Algumas vezes cruzamos com almas queridas em determinada estação e tão logo pegamos o próximo trem para estação mais além. Dói ver a porta fechar, sabendo que foi ele quem lhe deu o mapa para seguir adiante.

Quantas vezes não queremos voltar, mas o trem acelera rápido demais? A nova estação é estranha. Tudo é um eterno recomeçar. Rapidamente descobrimos que aqui e agora é nosso lugar. Até que chega, mais uma vez, a hora de seguir, a hora de tecer mais uma pérola, para a jóia máxima da vida.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Amor Desperto

Para quem escolhe uma vida desperta todos os dias são para celebrar o amor. Dias preenchidos de pequenas felicidades que no final traz a gostosa certeza de conhecer o sabor de estar junto.

Um sorriso na hora do almoço, um carinho inesperado no cangote. Tudo isso faz com que o amor seja real e mais importante que os pequenos obstáculos do cotidiano.

Viver um amor desperto é negar as algemas e celebrar os laços; fechar os olhos para os prazeres e cultivar a espiritualidade; é saber que mesmo diferentes queremos o mesmo: ser melhor a cada dia para experimentar constantemente o poder interior.

Que todos os dias escolha você como meu namorado. Desta forma viveremos um agora e sempre enamorados celebrando o amor em cada detalhe. O amor é este sentimento que nos faz amadurecer e se encantar, como um menino, pela a vida.

Abaixo um poema de fernando Pessoa que gosto muito. Para mim este Deus menino é o Amor.

“No céu era tudo falso, tudo em desacordo com flores e árvores e pedras. No céu tinha de estar sempre sério...

Fugiu para o sol e desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso natural.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me as flores e mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na mão e olha devagar para elas.

A Criança Nova que habita onde vivo
dá-me uma mão a mim e a outra a tudo que existe,
e assim vamos os três pelo caminho que houver, saltando e cantando e rindo e gozando o nosso segredo comum que é o de saber por toda a parte que não há mistério no mundo e que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todas os sons são as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas. (...)

Ele dorme dentro da minha alma e às vezes acorda de noite e brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar.
Põe uns em cima dos outros e bate palmas sozinho sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo e leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano e deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde, para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar até que nasça qualquer dia
que tu sabes qual é.“

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Olhos de Diamante




Tenho olhos de diamante

a ver os fractais de mil e uma

dimensões a bailar d'fronte a luz.


Visto o manto de estrelas

e saio a dançar por céus

de planetas distantes

com suas melodias angélicas

de uma nova frequência.


Caminho como um viajante obstinado

direcionando minha vela para o sopro divino

fazendo curvas para atingir o porto

de onde vim, para onde quero voltar

seguindo Tua voz, Teu suspiro.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Mandala

No círculo infinito
da inquietude de minha alma
Adentrei na mansão sagrada do meu ser
Segui o corredor luminoso das cores pastosas
Vi surgir tanta vida
Quando soprei a poeira da minha morada...

No palácio da divindade que me habita
Vi o reflexo de uma mente luminosa
Ainda enebriada pela existência mundana
Nos desabores de minha casa
Encontrei o jardim sagrado de mim mesma
E saboreei o gosto de estar entre flores
Auroras e rios caudolosos que me levam a cachoeiras
De serpentes

De repente se aprende que futuro e passado
Coexistem com o presente
Embrulhado na frente do papel branco
Esperando a quietude
Para revelar o caminho circular
Até o ponto do infinito
Em que opostos se encontram
Casam-se na dança da criação
Deste instante ou de um lugar distante
Que habito agora.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Para um beija-flor


Foto: Kalu Brum

Sobre as torres cinzentas da avenida sem fios
Caminhei até a fonte de tua essência.

No retrato virtual estavas pousado
Como se compusesse
Um retrato antigo de minha vida

Na cidade iluminada pela inconsciência
Fez-me tua flor,
Cativou-me e do tempo que gastaste
A regar minha existência,
Floresci na primavera do teu olhar.

Por vezes esconde-se ligeiro
Enquanto aguardo tua visita
Outras sorri em minha menina
E inunda meu corpo de uma doce felicidade

Em seu mistério me faço rosa
Dou-te pétalas e espinhos
Sonhos e desesperanças

E assim teço uma história
Nascida fantasticamente incoerente
Que segue por cordas bambas
De uma avenida sem-fios

Bêbada pela vida
Ferida por outros caçadores
Caminho doidivanamente
Seguindo o farol de olhos
Que se fecham para o que é essencial
E se fixam naquilo que nunca será perene.

Sou uma centelha divina
E transformo-me nas cores das primaveras
Suaves e melodiosas

Sou uma alma leve
Tentando vencer a densidade
Dos pensamentos humanos

Segure a minhas mão que posso
Conduzir-te ao verdadeiro paraíso
onde não existem prédios comerciais
bancos, cinzas ou malabaristas

Habito a ilha dos pássaros selvagens
Com seus cantos luminosos e inebriantes
Das fadas coloridas, das borboletas sorridentes
Das flores que sempre em flor
Das primaveras constantes

Meu caminho está iluminado pelas estrelas
Decorado pelas flores, fadas e fantasias
Ele existe para quem
Sabe apreciar
Aquilo que não tem resposta
Nem pergunta

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Pequena Flor

Foto: Kalu Brum

“...eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti única...”
Pequeno Príncipe

Comecei a pensar nessa história sentada em um pequeno asteróide, perdida na escuridão. Batizo-o de PP 010105. Aqueles que comigo estavam saberão porque o chamo assim. Naquele pequeno mundinho que habitei por um tempo, experimentei a inexistência de luz que caracteriza o início e o fim de uma era. Naquela ausência pude então me recriar da forma que desejei. Transformei-me em uma pequena flor ao lado de dois pequenos príncipes. Em cada uma das minhas pétalas, cativaram-me e me fizeram única.

Em um momento em que poderíamos mergulhar na escuridão dos espinhos, sentíamos a doçura das pétalas. Entre melodias e silêncios profundos, tecíamos o laço que para sempre nos unirá, nessa lembrança ardente e doce, de estar perdido e ser encontrado.

Desculpe por tanta filosofia. Um sentimento de urgência cativa-me. Quero cultivar a semente desse momento para dela ver nascer uma flor única. Porque, entre tantos fatos que me passaram despercebido, escolho esse para cativar. E mesmo que existam tantos outros como esse, esse me será eterno.

Poderia contar a história da maneira que me ensinaram as pessoas grandes:

“No dia primeiro de janeiro de 2005, 2 rapazes de 26 e 17 anos, e uma garota de 25 anos, se perderam em uma trilha em ilha grande e foram resgatados à meia noite do segundo dia do ano. Todos passam bem, apesar de terem ficado mais de 12 horas sem alimento e apresentarem leves escoriações.”

Então jamais saberiam da boca da noite que de leve sugava as cores: do céu, da mata e até mesmo as nossas próprias cores e em segundo tudo se tornou um som que se propagava na imensidão e se confundia com nossos próprios pensamentos.

Se contasse essa história como gente grande, nunca haveriam de saber que as estrelas caíram do céu e ficaram ao alcance de nossas mãos - a noite virou o céu escuro e vaga-lumes transformaram-se em estrelas.

Aquela pedra salvadora era nosso planeta que estávamos dispostos a habitar até o sopro do dia. Mas no fundo do nosso coração queríamos ser resgatados da noite, que se parecia com um sonho bom misturado com pesadelo.

Junto com cada bombeiro que nos tirou da escuridão, estava o rosto daqueles que um dia nos resgataram dos piores sonhos, aqueles que acenderam a luz do nosso coração: a face da minha mãe, do meu pai, da minha irmã e até minha própria face de 20 anos atrás. Tudo o que queríamos, naquele momento, era o abraço heróico e mágico daqueles que nos fizeram. Únicos em suas essências porque assim aprendemos a cativá-los e reatamos os nossos próprios laços.

Se quiserem saber dos números, nunca saberão que as estrelas entraram todas elas em mim quando cheguei no meu porto-seguro e escutei a voz Daquela que me resgatou da escuridão da ilusão.

Quero eternizar esse momento como quem plastifica a figura de um livro para que o tempo não a desmanche. Posso até não me ater aos detalhes que todos querem saber. O que serão os dias, a hora, perto dessa essência que experimento com a alma renascida, pequena e eterna.

Se pensarem que por conta dessa história deixarei de mergulhar nas trilhas, enganam-se! Sinto-me mais forte e ao mesmo tempo suscetível. Meu amigo Rubem Alves diz que Deus é perigo, Deus é abismo. Pude experimentar isso nesse oceano, nunca na lagoa. Meu barco quer os perigos do mar, embora saiba que sou apenas um barquinho de papel.

Não me contento com lagoas ou piscinas... Quero partir para habitar meu próprio planeta e na imensidão descobrir que todas as coisas são iguais e especiais porque me cativam.

Agora sei que sou aquilo que cativo.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Teia da Vida


Foto: Kalu Brum

Encontrei-me na teia da vida. E assim deixei a ilusão aracnídea para ser, senão, um fio de madrepérola tecido pela dor da ostra. Além das palavras posso acessar os mais lindos campos de sonhos.

Transformo-me em algo fluido, um não-sei-quê que me faz bailar no vento como uma pena, leve e colorida, que percorre o destino do mundo guiada pelo sopro de Deus. Remeto-me a todo momento para a mesma sensação de me apaixonar todos os dias pela vida, pelo mundo que é magicamente igual e fantasticamente diferente.

Porque cada vez que entro no oceano do mundo, o reflexo se faz de acordo com a minha própria vontade, e, também, está além dela. Ás vezes turbulento, outras tão sereno que mal se distingue céu e terra.

O que encontro em cada dia da minha vida, em cada linha é a certeza fantástica que a teia invisível que me liga ao infinito, transforma-me em todas as coisas do mundo. Em cada uma delas descubro que o amor é aquilo que não tem resposta, nem pergunta, impossível de ser descrito. Amor que se expressa com o som do coração e com o silêncio da alma.
Para você, meu deleite poético proporcionado por Neruda.

O que uma lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados?
Respondo que o oceano sabe.
Por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
Quem as algas apertam em teus braços?

Perguntas mais firmes que uma hora e um mar certos?
Eu sei perguntas sobre a presa branca do narval
e eu respondo contando como o unicórnio do mar, arpado, morre.

Perguntas sobre as plumas do rei-pescador
que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto:
que a vida, em seus estojos de jóias, é infinita como a areia incontável, pura;
e o tempo, entre uvas cor de sangue tornou a pedra lisa encheu a água-viva de luz,
desfez o seu nó, soltou seus fios musicais de uma cornicópia
feita de infinita madrepérola.

Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão
e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja.
Caminho como tu, investigando as estrelas sem fim
e em minha rede, durante a noite, acordo nu.
A única coisa capturada é um peixe dentro do vento.

terça-feira, 26 de maio de 2009

O Menino na Lua

Foto: Kalu Brum

Enquanto fitava o céu
Salpicado de estrelas e canções
Mergulhei no azul de seus olhos
A refletir o brilho da lua.
Em teus raios nectáreos
encontrei esta poesia...

Avistei- te delicadamente sentado.
Em sua alma
Vive um menino,
Equilibrado na ponta da lua
O menino pescava ilusões.

Foram tantas translações
De suas lágrimas fez-se
As estrelas cintilantes
Os meteoros e cometas

Ancorado em suas certezas etéreas
Pescou tantos sonhos
E nunca se cansou
Porque sabia
Que o oceano celeste
Ainda lhe revelaria um presente

Pescando sonhos de menino
Sentou-se sobre a eternidade
Nem o conforto, nem o brilho efêmeros
Lhe eram suficientes

E quando o tempo, as estrelas
Já pareciam semelhantes e opacas
O menino pescou o que procurava

Um coração menino surgiu na ponta
De seus questionamentos e buscas
Ele agora tornou-se um sol reluzente
E o menino voa até
onde seus sonhos de menino podem sonhar

Alado não precisa mais da lua
Dos astros ou estrelas
O menino sentado na lua
Pescou sua liberdade
De saber que o maior presente
Já lhe pertence e as ilusões
São peixes cegos que habitam a escuridão.

Hoje descobre que destino é o encontro
Com a certeza que os milagres
São as estrelas, os astros,
A lua e todo espaço que cabe
No vento da consciência

Com novas asas, o menino
Habita todos os espaços
E eu o encontro
Dentro de seus olhos
Que refletem a lua
a acolher meu menino
que pesca verdades.

Escrevi este poema há muitos meses. Tempo pequeno se comparado a eternidade de mudanças que aconteceram em nossas vidas. Foram tantas decobertas e mergulhos no espaço sagrado da verdade. Nos seus braços encontrei a paz de meu próprio coração. Cada dia ao seu lado aprendo uma nova lição e o que tenho feito, desde o dia em que encontrei seus olhos é agradecer pelo maravilhoso presente que recebi.

Um jardim precisa ser cuidado com muita dedicação: retirar as ervas-daninhas, regar as flores e proteger as sementes. Minha intenção desde o dia que decidi unir-me a você nesta jornada rumo àquilo que mais elevado, é cuidar para que nosso jardim floresça, sempre!

Sei que existirão dias de sol, dias nublados. Mas se mantivermos nosso olhar para Deus, O reconheceremos em cada um destes estados.



Agradeço com o coração cheio de amor e gratidão, com os olhos cheios de lágrimas, por aceitar ser meu consorte nesta jornada que iniciamos. Eu te amo do fundo do meu coração! Obrigada por você existir...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Contentamento


Foto: Kalu Brum

Todo ser humano busca o amor e a alegria. Algumas vezes de maneira equivocada encontramos no mundo. Fico observando a alegria efêmera e eufórica das pessoas. Tão diferente do sentimento de contentamento que experimento quando medito com meu filho no colo, ou quando canto pela manhã.

É uma delícia este estado de alegria. A alegria é sinal de coragem. É quando você decide ver a luz mesmo existindo sombras. Por isso, agradeça por sua coragem. Coragem por dentre tantas opções escolher mergulhar fundo na caverna de seu coração para experimentar o divino contentamento. Coragem de afastar-se das negatividades e transformar as adversidades em crescimento.

Siga as ondas de contentamento e deixe que leve você ao seu coração. Como se estivesse nadando em um mar calmo e uma onda levasse você até a areia da praia. Deixe que sua respiração, como uma brisa quente que toca seu Ser lhe conduza para experimentar o contentamento de estar dentro do seu próprio coração.

Com grande contentamento me despeço de vocês e que possamos experimentar o contentamento em todos os momentos de nossas vidas e levar nossa alegria verdadeira pelo mundo.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Coração

Foto: Kalu Brum

O coração já está lá, porque ali é a morada de Deus. Quando nascemos dia a dia nos afastamos da divindade que nos habita, então, norteados pelos desejos e sentidos, esquecemos de parar e ouvir o indescritível e silencioso som que ecoa no espaço posterior à expiração e anterior a nova inspiração.

A grande ilusão nos leva para mares turbulentos, sem direção e tantas vezes batemos nas pedras acreditando ser aquela a real direção. A meta elevada é o farol que guia nosso barco, o Guru aquele que nos ensina a navegar e as escrituras, nosso remo e vela.

Antes de encontrar minha meta elevada e entregar-me ao vento de Deus, confiando plenamente em Sua condução, naveguei por mares muito turbulentos.

Sentia que me faltava uma orientação para minha vida. Então pedi por um caminho espiritual e sabedoria para encontrá-lo. Logo em seguida perdi meu emprego, terminei meu noivado e fiquei pensando: Deus, para onde estou sendo levada?

Mas meu coração já estava lá e pôde contemplar, antes do meu intelecto, que por mais tortuosa que parecesse aquela trilha era ela que me levaria para luz.

Então encontrei meu Guru e da escuridão aprendi a caminhar na luz, confiante que no espaço do coração moram todas as respostas, até mesmo para as perguntas que nunca ousei fazer.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Pensamentos

Foto: Kalu Brum

A verdade precisa ser sentida dentro do coração. A Verdade não pode ser jogada ao campo das idéias. Hoje enquanto meditava, comecei a escutava na minha cabeça:

- Você pensa demais!
- Você pensa demais!
- Você pensa demais!

Essa frase foi ficando tão alta que por um instante pensei que iria enlouquecer. Comecei a chorar e pedir :

- Por favor, meu coração, faça-me parar de pensar.

Foi neste instante que comecei a perceber que além da frase, havia um outro som, uma batida. Esse ruído tornou-se mais forte. Tratava-se da batida de meu próprio coração. A medida que me concentrava neste som, notei que entre as duas batidas havia um espaço de silêncio.

Focada neste silêncio senti a pausa da minha existência. Minha respiração, meu coração pararam. Fui invadida por uma sensação de inexistência. Eu já não mais existia. Não era nem meu coração, nem mente, nem respiração. Transformei-me no vazio e na completude

Após retornar senti como se caminhasse silenciosamente até o alto de uma montanha. Deitei e fiquei olhando para o céu, sem emitir uma palavra sequer, apenas apreciando o movimento das nuvens.

As nuvens são como nossos pensamentos: Às vezes escuras, baixas e assustadoras; outras leves e gostosas como algodão doce, tão bonitas e macias que surge aquela vontade de se deitar sobre elas; às vezes temos pensamentos rápidos, inconstantes...

As nuvens têm as formas do nosso pensar. Alguns esculpem anjos, outros demônios.
Mas toda nuvem, assim como nossos pensamentos, servem apenas para emoldurar o céu, que sempre está lá...

As nuvens são inconstantes e não se pode apostar a sorte nelas. Mas o céu é a certeza, a constância. Olhar por céu amplia nossa dimensão, nos faz perceber a pequenez e a grandeza de nós. E justamente no momento que posso estar além das nuvens/pensamentos é que posso sentir a leveza da minha existência.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Esquina

Foto: Kalu Brum

Não sei se lhe falei da minha casa. Apareceu um terreno na rua da felicidade, esquina com a Rua do amor. Um terreno cheio de flores as quais tenho cultivado com todo o carinho e apreço. São canteiros coloridos e perfumados que exibem transcendência, maços de resolução, universalidade, sacralidade e tolerância.

Este canteiro deu-me uma nova visão da vida. Desde seu florescimento aprendi a deitar sobre o vento e deixar-me ser levada por ele. Ouço os pássaros e sigo por rumos desconhecidos e por isso repletos de surpresas agradáveis... A beleza do jardim tem atraído pássaros raros, com um canto tão melodioso, capazes de embalar a alma de todos os seres que habitam minha casa.

Construí a minha casa com os materiais mais sagrados: paredes de vento, céu de estrelas, lustre de sol e lua, chão ladrilhado de terra fértil. E por onde vou encontro a esquina da felicidade com o amor... Por isso minha casa muda de roupa para cada festa de viver, em todos os salões do mundo. Assim tenho chão de grama, duna ou lama; Paredes de vento frio ou quente, os mais diversos aromas e todos os jardins do mundo.

Acho que realmente incorporei a minha identidade beija-flor, tamanha a velocidade das mudanças que tenho vivido... E a remoção cuidadosa das montanhas tem ecoado nos meus e gerado grande felicidade...

Um mundo absolutamente diferente de tudo que já vivi. Aprendi a embalar-me pela certeza gloriosa do retorno E...terno, me redescobrindo em cada ausência plena... A sensação não é outra de reconciliação com a vida, que habita a esquina do amor com a felicidade.

Hoje sou feita de penas, vento, terra, fogo, água e éter... eternamente viva na esquina do amor com a felicidade...

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Tempero da Vida


Foto: Kalu Brum

Língua fria
Vermelha, amorangada
Percorre meu corpo quente
Salpicado de pimenta e canela

De olhos fechados
Seus poros buscam
o tempero da minha existência
para tatuar-se eternamente
em minha epiderme

Lembranças da cozinha divina
De pratos saborosos
do banquete de dançarina

Cheiro de gengibre e canela
colhido com a ponta do nariz
em sua nuca orvalhada pelo suor

No calor incandescido de minhas entranhas
o aroma sonoro do gemido
que anuncia a proximidade do ápice
Lábios sedentos
Carinhos e...ternos
Minha especilidade
leva essência de rosas
De sua alma leve

Desabito-me e bailo em suas cores
De olhos meninos
que me oferecem uma planície
de flores de maio para rolar

Faço-me água e adoto a forma de seu copo
Brinco com sua coluna
Com sua extremidades
Delicio-me mesmo
com a combinação de temperos de sua alma
Que refletem e potencializam meu próprio ser

Desejos transformam-se
Em anseios
E os seios
Ainda firmes pela idade
Levam-te para dentro de meu coração

Memórias de uma vida
Com cheiros, sabores e sons
De uma jovem velha canção
De ninar
Para despertar para um novo tempo.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Inspiração

Foto: Paula Lyn - www.paulalyn.com.br

Era uma vez um menina que via luz e sombras para todos os lados, que se sentia perdida e abandonada neste grande mundo. Que ouvia vozes interiores, que sentia amor tão profundo por todos os animais que queria salvar a todos. Era uma vez uma menina que sentia falta de Deus. Esta menina esqueceu das vozes, das luzes e pediu para ser normal. E tanto se encolheu em sua existência que esqueceu de quem era.

Começou a namorar, conseguiu o emprego que sonhava, um amante maluco que levava ela para ver o pôr do sol no litoral, mas que por pena de si, resolveu voar sem asas. Era uma vez uma mulher que achou que a beleza era o que lhe faltava. Esqueceu a poesia, as luzes e os sons dos anjos, os fantamas das noites escuras, os animais, a jóia do orvalho da manhã recém acordada.

Um dia, a mulher sentiu falta da menina se viu sem emprego, sem namorado, sem rimas, prosas, versos e melodias. Na passagem do ano ela deitou na areia e implorou: eu quero conhecê-Lo.

E foi então que com uma mochila nas costas e uma melodia na cabeça ela partiu para uma viagem solitária para uma ilha carioca. Encontrou sua música e poesia. Um novo amor que lhe mostraria um lindo caminho.

Ela foi até ele. Era difícil, não tinha endereço. Só aquele inebriante cheiro de incenso que ela bem conhecia de outras vidas. Ela correu na avenida sem fios, na selva de pedra e chegou até seu paraíso. E aquele olhar compassivo de sua Mestra, derramou sobre ela a Amazing Grace.

Ela, que tanto tempo tinha corrido de suas sombras e de suas pegadas, sentou-se debaixo de uma frondosa árvore e descobriu o Universo dentro de si. Escutou as melodias mais lindas, as cores mais vibrantes. Bailou no palácio de seu coração e foi considera louca por aqueles que eram incapazes de ouvir a música. Enfrentou seus demônios, controlou os cavalos da mente que passaram a servi-la, apesar de sua natureza selvagem.

Reencontrou-se menina e passou a brincar de viver no jardim da criação. E quando ela quis se isolar em uma caverna para conhecê-Lo melhor, Ele mostrou que está em todas as coisas e a felicidade está tão próxima quanto as ondas da respiração.


Aprendeu a voar, com fortes asas para dentro de seu coração.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Nascer

Foto: Paula Lyn - www.paulalyn.com.br

O poeta tinha razão: só as mães são mais felizes. Ainda não sei qual pó mágico colocaram nesta relação que faz com que eu me encante com uma palavra errada. Adormeço ouvindo o mantra de sua voz fininha tentando dialogar ainda muitas vezes em língua desconhecida.

E me encanto com a pequena mão que me acaricia a noite só para saber se estou mesmo ali. Como posso chorar sozinha lembrando do seu pequeno corpo aninhado junto ao meu, nas longas noites que passei balançando você para lá e para cá, murmurando palavras de amor no seu pequeno ouvido. Eu não tinha pressa que você crescesse e pude saborear cada sobremesa oferecida com a calma de uma velha alma.
Os primeiros movimentos sozinhos, os passos segurando firme suas mãos e sustentando seu caminhar com o olhar mais admirado, sabendo que agora o sol incidia em seu céu e lhe unia a Deus.

E o meu néctar, minha alma que lhe ofereço sem pressa que você parta, com a doçura de uma fêmea que certa está da melhor caça. Vejo você saltar, correr, sorrir e brincar como um pequeno mamífero que dia a dia começa a escrever sua história com suas próprias palavras.
Eu me descubro poeta de seus poros, bailarina de seus ruídos. Você é uma linda obra de arte que inspirei-me em um inverno para te trazer no meu verão.

Assim como as flores que chegam na data de tua vinda, sempre saberei que estás lá, crescendo como um pássaro encantado cada vez que a frondosa Acassia despejar suas flores amarelas, me lembrando que o inevitável tempo de nascer desembarca todos os anos, no mesmo dia.

Ladrões de Palavras

Foto: Kalu Brum - autoretrato

Roubaram-me as palavras. Minhas frases parecem perdidas na minha busca por aquilo que não sei se quero seguir.

Sinto falta daquela poesia borbulhante que nascia das entranhas e não mais pertencia a mim. Aquele entusiasmo cheio de vida, dos pulos de menina bailante que hoje são passos pesarosos de uma mulher que tem que ganhar a vida.

E nas portas fechadas, sinto voltar a minha claustrofobia e a imensa vontade de habitar o teto de estrelas e o chão de terra que construí o castelo de minhas idiossincrasias. Enquanto tento sorrir, não escondo a tristeza do canto de olho, nem as sombras que se formam no sol por trás de mim.

Roubaram-me as palavras e elas voam como passáros livres esperando o semear do meu jardim. Enquanto espero com calma, balançando para frente e para trás no relógio da vida, descubro a certeza de que só agora tem sentido.

Olho parte de mim crescer aqui fora, vejo parte de mim renascer dentro, chamando a artista e a poeta para sambar a noite inteira, enquanto adormeço dando peito.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Poeira de Deus

Foto: Paula Lyn - www.paulalyn.com.br

“Somos apenas uma poeira no vento”. Gosto de imaginar minha existência como uma poeira no vento de Deus. Ele me sopra, e brilhante, pequenina, livre, entrego-me a Sua vontade. E cada paradeiro tem sido uma grande e inesquecível aventura.

Ele soprou-Me para em sua direção. Avistei-te antes de vê-lo porque já brilhavas em meu interior. Assim o vento conduziu-me até sua pequenina e vibrante existência. Sem resistência, uni-me a sua perfeição. Você é a melodia perfeita que esperava para minha canção. Envolve-me e fazes me bailar, sempre mostrando que o vento de Deus é perfeito e enquanto tivermos as velas em Sua direção, estaremos no caminho correto.

Não importa que existam partículas de sujeira. Enquanto houver o vento elas dispersarão. E então sempre poderemos ver a lua e as estrelas e aprender que a intuição brilha no céu para nos mostrar para onde teremos que ir quando nos sentirmos perdidos.

O amor é uma grande lição. Enquanto conseguirmos enxergar através da gota de orvalho e ver o caleidoscópio da vida, estaremos guiando nossas vidas pelo brilho da verdade que nos transforma na poeira de Deus.

Quero cegar-me para o mundo e Vê-lo em cada evento, cada gota, cada sentimento. Assim sempre terei na minha alma um outra vez, para nunca mais girar nessa roda.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Kalu

Foto: Kalu Brum

Eu gosto de filosofar sobre a vida, saber de teologia, biologia, ecologia, física quântica
Em outros momentos falo besteiras, trivialidades, palavrões
Gosto de ser mimada com presentes, surpresas, carinhos, abraços e beijinhos
E sempre surpreendo seja com um beijo, lambida ou uma mordida

Falo bastante, sobre todos os assuntos
Os que não conheço, pergunto como uma criança de 08 anos
Da mesma forma que preciso estar em silêncio, só, em um espaço meu

Aprecio andar lado a lado, de mãos dadas e pensamentos colados
Sem rumo ou destino, degustando de cada passo da jornada
E sei da importância de estar só com meus pensamentos
Quieta em meu mergulho interior

Tenho corpo de 18, cabeça de 40 e coração de 05 anos
Na média acho que dá 26
Sou péssima em matemática
Esqueço nome de coisas
Dos papéis que me dão para segurar
Mesmo que seja o ingresso de cinema

Muitas vezes lembro-me de cenas, lugares com uma riqueza de detalhes
Incrivelmente fantásticas
Eu acredito em fadas, duendes e seres encantados
Acredito que em essência todos são bons
E importantes para alguém
Porque nada que vive é inútil

Sou geniosa, muitas vezes teimosa e exigente
Outras doce, divertida, feliz, palhaça e serena
Esqueço rápido das dores
Ofensas e desavenças
Perdôo com a facilidade de um sorriso

Adoro falar ao telefone
Latir, isso mesmo, latir!
Brincar com criança
Cachorro
Escrever poesias
Sussurrar juras de amor no ouvido
Ouvir alguém a cantar para mim
Nem que seja por telefone

As vezes fico brava a toa, sorrio a toa
Na maior parte do tempo me sinto criança
A descobrir um mundo encantado

Quero sempre saber mais sobre a alma
O céu, a Terra e tudo aquilo que faz meu coração flutuar

Gosto de correr, nadar, brincar
Bolhas de sabão, pipa no céu, pular corda
Correr, mergulhar, bicicleta, e não parar um segundo
E ficar quietinha abraçada vendo um lindo pôr-do-sol

Canto no chuveiro, no carro, na rua
Na maior parte das vezes não me incomodo
Com que os outros vão pensar de mim

Sou esquisita, como bolacha primeiro o tampo
Depois tento desafiá-la deixando intacto o recheio
Adoro cheiro de café
De chuva no asfalto
Adoro brincar na chuva
Beijar na chuva

Não como carne vermelha, frituras
Adoro verduras, legumes
Comida japonesa
Adoro chocolate com morango
Foundie
Bala, chiclete, pirulito e sorvete

Geralmente estou de dieta
Porque adoro comer
Adoro cozinhar ouvindo música
Dirigir, trabalhar, caminhar, respirar
Minha vida tem trilha sonora

Adoro dormir de conchinha, de abraçar as pessoas
Durmo abraçada com um urso de pelúcia
Cheiro de perfume, de tempero
Cheiro de trás da nuca, no pé do cabelo
Gosto de morder
Andar descalça, deitar na grama
Fazer esculturas com as nuvens

Amo o nascer do sol, o pôr-do-sol
Do sol
Da lua
Da alma humana e seus labirintos

Se você leu tudo que escrevi,
Tenha certeza
Que você mergulhou em minha alma
E sabe exatamente quem eu sou.
Simplesmente Kalu

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Dança das Palavras


Foto: Kalu Brum

Acho tão bela a dança das palavras. São como fios de uma teia de aranha, que capturaram, envolvem e transformam a presa. O poder das palavras é muito grande. Ela pode nos levar ao êxtase ou a tristeza mais aguda.

Pense em uma carta.

Lembre-se da inebriante sensação de ler uma declaração de amor. O calor no abdômen, o rubor na face. Mas se essa mesma carta, no final, conter uma despedida, a sensação se transformaria instantaneamente.

Palavras são como sementes mágicas que em cada solo, germinará de maneira própria.

Seja qual for a situação, a palavra, que forma a frase, que faz o texto, só se completa e realiza a comunicação quando encontra um espaço vazio. A mão encontra o buraco da luva, o seio da mãe encontra a boca faminta do bebê, a semente encontra o vazio da terra para germinar e as palavras precisam do vazio do ouvido e do coração para se realizarem.

O que percebo é que palavras vagam sem encontrar um espaço. Como disse Cássia "são palavras ao vento". E estas mesmas mágicas sementes capturam apenas instantes de realidade. Por isso o jornal de hoje embrulha o peixe de amanhã; as poesias de amantes são palavras que ferem. O que se eterniza são palavras despretenciosas, que voam como bolas de sabão, sabendo que seu destino colorido e leve é efêmero.

Permita-se ser um vazio pleno para que a dança das palavras se estabeleça em toda a sua plenitude e mergulhe em todas as sensações despertadas por essa teia, capaz de capturar, envolver e digerir o mundo. Saudações às palavras e sua realização no buraco do coração.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Esculturas

Foto: Kalu Brum

Aquele corpo pequeno, pele macia, cabelos leves como o brilho da aurora.
Nu e ligeiramente arrepiado, permanecia ali exatamente
como acabara de esculpi-lo com cada célula do meu corpo.

Nos lábios rosados desenhava-se um delicado sorriso
daqueles que fazem uma oração silenciosa.
No meio da noite despertei
e sem que soubesses, fitei-te longamente.

Naquele momento percebi que amar
é fazer amor com as delicadezas.
Por repetidas vezes fiz o mesmo o ritual
e todas as vezes o encontro
como da primeira vez em que dormi a seu lado:
pequeno e eterno, equilibrado nas linhas invisíveis da sua efêmera existência.

Esse é o meu segredo de amor:
velar seu sono mesmo à distância.
Quando seu sonho se separa do meu,
despertas aflito e perdido no mar escuro.

Esse é meu segredo...
Mesmo longe estou sempre perto.
Tão perto que vivo em ti...

Amo cada sílaba que o traduz e sempre o encontrarei,
nu e sereno, deitado sobre a teia de paz tecida com os fios silêncio da eternidade.