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terça-feira, 11 de maio de 2010
A mãe que cura
Aquilo que eu outrora via perfeito, entendi ser medo. Sempre sozinha. Ironia, porque o sentimento mais dolorido dentro de mim se chama solidão. Eu sempre me senti sozinha.Sempre. De alguma forma, por alguma razão que desconheço, não confio em ninguém para me entregar completamente.
Me dei conta que sou autosuficiente no prazer. Atinjo mil e um orgasmos mas nunca em contato com o outro, apenas utilizando o outro como objeto para atingir o prazer. Mas nunca me entrego por completo. Como se tivesse um medo agudo de ser atingida, ferida.
Tenho pessoas que amo muito e eu amo todas elas. Mas sempre que preciso de colo, eu não sei pedir, eu não sei receber, eu não sei me entregar. Quantas vezes não ouvi a frase: não sei o que te dizer, vocë é tão poderosa. E este poder de ação tem um contraponto de uma mulher frágil, extremamente frágil que não se permite chegar, que não consegue se entregar. Parece que cuido melhor de mim quando cuido do outro. E quando chega a hora de fazer algo por mim sinto que só eu mesma posso fazer.
Assim é no sexo, nas amizades, no meu parto. Eu pari sozinha. Não por escolha, mas por medo. Enfim era minha mulher selvagem naquele momento agindo como as mamíferas – solitárias e plenas, com medo do predador.
Preciso ser acolhida, preciso acolher o bebê que foi parido, segurou a toalha, não mamou e ficou horas sozinho no berçário. O bebê que ainda mora dentro de mim, que se encolhe na madrugada escura com medo de fantasmas e não sabe quem pode salvá-lo.
O parto pode ser um momento mágico. Parimos tantas memórias, de tantas vidas. Parimos o parto de nossas mães, avós, dos nossos ancestrais. Parimos o bebê que fomos. Se a infância é a fase mais importante das nossas vidas, o primeiro ano é fundamental. E o nascimento primordial.
Eu sei que fui nascida, pelo menos, no dia certo. Mas nasci com falta de mãe. Dos olhos da minha mãe, do calor do seu corpo, do seu abraço. Perdemos nosso vinculo inicial, nossa ligação. Eu quero e preciso recuperar.
Por isso olhei nos olhos e não me separei do meu filho por um segundo. Por isso nunca deixei que ele chorasse, por isso sempre atendi a suas demandas. Ele mama no peito porque não precisa correr para crescer para calar sua dor profunda de solidão infantil. Ele é grande sendo pequeno. Amado com a completude de minha alma.
Eu tinha um ursinho de quem me libertei apenas com 21 anos depois da terapia . Um urso que meu pai me deu e que segurava tão forte, em posição fetal, porque só assim me sentia segura, confortada. Mas,por vezes, quando a solidão bate, quando me sinto perdida como um bebê longe de sua mãe, sem ninguém para acolhe-lo em seu choro visceral, embolo um pano e abraço.
Me sinto feliz porque meu filho nunca teve um bicho como intermediário de seus sentimentos. E assim, na figura do meu filho, eu me curo, acolho o bebê quem fui. Em sua figura alegre, bebo a alegria que me foi negada, no peito cheio de leite, supro minha carência e assim apaziguo minha criança interior que agora pode crescer em paz, refletida na figura de um menino feliz.
Foto: Paula Lyn
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