quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Velho baú



foto: Kalu Brum

Hoje abri um velho baú e encontrei roupas apertadas, fora de moda escritas em letras redondas e papel amarelado. Sonhos que já não cabem em minha livre alma, de desejos que não mais adornam minha velha alma.

Não sei onde me perdi para me encontrar mas agora me sinto tão dentro de mim que não encontro mais lugar, para ser o que não posso ser na itegridade do meu ser.

E eu só sei ser assim, sem horários ou manuais. Sem roupa social, de unhas feitas de pé no chão, cabelo na moda voando contra o vento da tarde. Não caibo no trânsito apertado de quem corre sem saber para onde ir. Me importa mesmo o balançar na rede, as estrelas que despontam enquanto canto para você me deixar e partir para terra de onde nunca desabitou totalmente.

Não tenho mais tinta na ponta dos neurônios. Me perdoem, escrevo com as víceras abertas, com sangue vivo que corre em minhas veias a uma velocidade frenética que faz a temperatura do planeta subir e derretar as calotas polares das hipocrisias.

Eu bem que tento sair deste mundo, mas parece que o universo conspira para que possa viver aquilo que me cabe, tão embotado de mim, que me faz vaidosa de ver que construo o mundo com meus sonhos e mudo de sonhos para sonhar ainda maior e melhor.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Lá do Céu



Foto: Kalu Brum

Um dia, lá do céu, me encantei com este planeta azul. Parecia ser brilhante e alegre com seus pássaros coloridos, folhas de verdes diversos, sorrisos e bailares em fogueiras.


Fiquei lá de cima admirando o nascer, crescer, envelhecer e partir de todas as coisas e como os homens se prendem a noção errônea do tempo sempre voltados com o faróis para trás ou para frente, sem olhar a paisagem de suas belas janelas.

E foi uma risada gostosa de criança que me enfeitiçou de tal forma que aqui despenquei, sem avisos ou manuais. Com olhos de anjo sempre vi o que parece não existir, vivi coisas tão intensas e ao mesmo tempo que consegui permanecer fora de muitas delas.

Aqui embaixo olhava a estrela brilhante de cão maior e pedia para voltar. É ruim sentir-se fora de lugar, solitária, diferente tanto tempo. Viver com anjos, ver as fadas a tocar os botões e fazer a primavera. Um mundo secreto, fantástico que por vezes pareceu ilusão de menina louca. E na minha mais desesperada prece, um dia estava preenchida.

Uma alma irmã veio lá de perto para me ensinar novamente o caminho das esrelas, a encantar-me com esta pérola azul que hoje habito. E deitada na relva, olhando as nuvens, de mãos dadas, fitando seu olhos brilhantes e ouvindo seu riso fácil, eu me lembrei do que me encantou. E em prece agradeci por aqui aterrizar e sem perceber estava, com suas asas, oltando para casa. Em 2012 a gente chega.


sábado, 19 de setembro de 2009

Caminhos e Escolhas


"Eu não sou da sua rua,
eu não sou o seu vizinho.
eu moro muito longe..."




Pessoas caminham ensimesmadas. No carro, vidros fechados e escuros para que a realidade de fora não os olhem. Sentadas solitariamente, deixam namorados, amigos e famílias para se sentirem parte de um mundo globalizado em comunicações medadas por máquinas que distraem e tiram o foco do essnecial.



Enquanto são ordinárias em suas vidas diárias, escrevem coisas fantásticas em blogs, twitter, tem milhões de seguidores, falam, falam e não ouvem .Brodecasters de um mundo superficial.



Não é o meio que faz as coisas, mas como usamos os meios. O fato é, que cada dia, mais e mais pessoas acham que precisam estar em todos os lugares para serem alguém e se esquecem que é só em contato com o coração, com a fonte mais pura, é que realmente conseguimos conhecer o mundo real.

Quando desligamos nossas mentes e sentidos daquilo que nos distrai, podemos ouvir os ruídos de nossa mente a prender a fazer música. Não vejo sentido em ter um cachorro, pagar um pet shop para dar banho nele e uma pessoa para caminhar ao lado de seu amigo animal, enquanto você se distraí na vã ilusão que se está transformando o mundo mediado por tecnologia.



Eu muitas vezes me perco em tantas coisas: milhões de e-mails, comunidades, orkut, twitter. Mas agora tenho me obrigado a caminhar pela manhã com meu cão, na mata linda que me cerca, correr para fazer o corpo suar e depois tomar uma ducha no quintal. Usar da tecnologia, mas dormir cedo para descansar a alma, meditar para equilibrar e contatar meu ser, cantar para agradecer, fazer yoga para colocar a energia vital a disposição do corpo.

Há muitas formas de nos distrair, poucos caminhos que nos ensinam a ver a felicidade aqui e agora, como canta Gil e muitos labirintos sem saída que nos fazem acreditar que a felicidade está sempre ali, onde não se vê.

Eu escolhi meu caminho: desliguei a televisão, abri as antenas do além, os olhos dos anjos e uma vida que faz da existência uma verdadeira oportunidade de transformação. Qual é o seu?

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Brincar de Viver


Hoje eu queria deixar os compormissos de lado, os milhões de textos, idéias, argumentos para ser somente criança. Correr de braços abertos e voar dentro de mim, rir aquela risada gostosa de ver uma bolhinha de sabão explodir, rolar a montanha e coçar as costas por causa da grama.

Eu trocaria minhas ideologias mais profundas para simplesmente observar o formato da pipoca, das nuvens do céu. Eu prefiro brigar pelo pedaço de chocolate maior ou quem está com mais suco no restante da garrafa do que lidar com egos e vaidades, do que simplesmente fazer girar a máquina capitalista.
A medida que a mente se fortalece, o corpo endurece com o coração. A gente sempre corre e deixa para lá o fundamental. E briga com as faltas de comunicação e se perde do gostoso de viver. A gente esquece de brincar, nem se lembra das nossas fantasias, sonhos, da liberdade que é poder ser livre.

Hoje eu liberto minha criança para brincar com você e adormecer de mãos dadas na certeza que a única coisa que tem sentido na vida é viver.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A Iluminação

Foto: Kalu Brum

Já me senti absolutamente infeliz. Este sentimento me perseguia desde criança. A frase da Camille Claudel refletia minha obscura alma: Há sempre uma ausência que me atormenta.

Eu vivia atormentada, adorava poemas de morte, escrevia sobre a morte.

Não via sentido para minha vida pequeno burguesa. Eu não gostava dos meus pais. E todo tempo, me sentia fora de lugar. Quase todas as noites eu dormia chorando. Eu achava que precisava de um grande amor. Mas mesmo com alguém eu me sentia mais só. Eu parecia sempre feliz, mas não era.

Até o dia que comecei a meditar. Até o dia que alguém me ensinou que a vida humana era um presente e eu experimentei uma felicidade indescritível. Eu nunca fumei um baseado e posso garantir que tive as viagens mais loucas de olhos fechados.

Eu ainda me perco de mim . Mas todas as vezes que eu fecho os olhos e me concentro na minha respiração e visualizo meu coração cheio de luz, eu me transformo. Eu me sinto parte deste universo, conectada a um plano maior. Neste instante sei que minha existência de amar com profundidade pode fazer a diferença.

Eu dedico meu tempo a ajudar as pessoas e agradeço por conseguir fazer isso. E quanto mais consigo me conectar com minha natureza mais pura, como agora que eu estou absolutamente conectada com você, sem saber se está lendo o que escrevo, oferecendo o que me trouxe simplicidade o que aliviou minha dor, mais consigo transbordar. Minha dor passou, não por negá-la, mas por enfrentá-la com coragem.

Enfrentei todos meus demônios. Eu sei que me perdi para me encontrar. Só de lembrar disso não consigo conter a lágrima que cai de gratidão. E meu maior presente é saber que tenho muito tempo para me aprimorar, mas se eu morrer hoje, agora, já terá valido a pena.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Peixe Grande

Nos seus raios joviais
renovo meus sonhos e esperanças
reaprendo a pescar peixes invisíveis
que descem do céu como orvalho da manhã

Sua luz me guia
a habitar o presente
desfruto da alegria
de seguir com a lupa
os rastros de formiga

Seu brilho me ressuscita
desfaz as amarras do tempo
ilumina a escuridão do crescer
faz flutuar o peso das responsabilidades

Sua fé me inspira
a acreditar que abrir os braços
e correr no gramado olhando para o céu
é voar

Porque não se voa com asas
ou no avião
o vôo é da imaginação

(poema de Kalu Brum)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Aquilo que eu ainda não sei

Foto: Kalu Brum

Eu sei de muitas coisas daqui desta terra, de outras vidas, além dos céus e de todo entendimento. Mas sempre que uma coisa me parece certa, estabelecida e enraizada, sinto vontade de partir para buscar-me em outras que ainda não conheço.

E assim me queimo nas chamas de mim mesma e vejo cair por terra, estrela por estrela que pareciam tão fixas em suas flutuações.

E estas coisas que não conheço provocam-me um sentimento estanho de tinta colorida a pintar o jardim de minha vida. Cenas que se constroem como areias de uma duna que amanhã não estará lá.

Como agora sou tomada por um sentimento desconhecido de estar à beira do abismo e sentir vontade de pular, só para saborear o vento, sentir meu corpo se entregar na certeza que a queda poderá me causar ferimentos profundos.

Mas o momento que antecede a vontade de saltar me inebria a esquecer tudo o que construí, passo a passo, até aqui chegar.

Sou seduzida pelo cheiro do vento produzido por uma nuca que nem me lembrava mais existir, mas que de súbito apareceu, por obra do destino, a me causar um mal/bem inexplicável , daqueles que fazem a gente imaginar que somos pássaros.

Por cima da neblina densa que me impede de saber o tamanho da queda, eu acaricio as nuvens, passando cada molécula de água por todo meu corpo, deixando escorrer uma gota pelas minhas intimidades que me abre pétala por pétala.

E essa gota que me penetra, fecunda poemas esquecidos na biblioteca daquela que mantenho sob vigilância, mas que insiste por vezes em andar nua seduzindo as tropas, fazendo esquecer as guerras e convida apenas a celebrar em volta da fogueira, em uma dança profana e onírica, aquilo que eu ainda não sei.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Sinfonia Inacabada



Foto: Kalu Brum

Por quinze anos vivi espremido, ao lado de Oswald de Andrade, Clarice Lispector, Machado de Assis. Naquele dia, no início de 1997, uma mão longa, de unhas compridas e pintadas de esmalte claro, como de uma noiva, retiraram-me de lá, com grande esforço de pés equilibrados nas pontas dos dedos, apoiados em cima de uma escada de metal que fazia sons engraçados.

- É esse! Se ele é músico certamente irá gostar.

Mal sabia ela que apesar de contar a história de Villa Lobos, um grande músico brasileiro, apresentava apenas informações históricas vazias e sem poesia. Saí daquela casa pequena burguesa, com mais de 30 anos de existência, reformada inúmera vezes, mas que mantinha um piso marrom castor com flores bege de gosto bastante duvidoso.

Fui carregado perto do coração, ouvindo um compasso acelerado que certamente inspiraria o próprio Villa Lobos a criar uma composição ainda mais marcante que o próprio Guarani. Naquele momento, a mente daquelas mãos imaginava uma infinidade de possibilidades românticas capaz de deixar pasmo José de Alencar com seu Romance entre Peri e Ceci.

Era a primeira vez que aquele canário belga, criado em uma gaiola de ilusões, experimentava o vôo solitário para dentro de uma floresta desconhecida dos sentimentos intensos, confusos, imprescindíveis e contraditórios que faziam o sangue borbulhar a uma temperatura quente que chegava a causar calafrios e o estômago sentir um vazio que era capaz de fagocitar-se.

As mãos quadradas, de unhas roídas, claras e um coração com andamento mais harmônico, receberiam naquele dia, este que traz estas memórias que vão além da minha capa verde oliva.
Permaneci no banco ao lado, daquele lugar escuro, com uma tela gigantesca, a contar, com imagem e som, a história de personagens bem menos célebres que aqueles que me comprimiram por anos na prateleira.

As mãos finas, de dedos longos e unhas alvas como de noiva, foram tocadas de leve por aquela quadrada de unhas roídas, fazendo aquele coração de canário cantar em um andamento descompassado e frenético.

Foi então que permaneci escondido em uma prateleira, representando aquela sinfonia que nunca foi tocada. Como se, por obra do destino, Peri nunca tivera encontrado Ceci. Agora estava soterrado entre obras de psicologia e teorias políticas.

Aqui fui colocado, quero dizer, quase lançado com desdém, após uma conversa que fez a orquestra interromper, sem nunca começar:

- Você é um diamante bruto, disse o dono das unhas roídas. Mas eu não estou em tempo de lapidar-te. Por favor, não me procure mais.

Ele ainda não se sentia preparado para entrar no navio voador, deixar a Terra do Nunca e os meninos perdidos, para viver pressionado pelo crocodilo do tempo que avassala os romances.
Ela, por sua vez, fora lançada na cachoeira abaixo, batendo contra pedras de um caudaloso rio. Sem saber, as pedras a lapidaram esculpindo um desenho único de uma beleza bruta e delicada.
Doze anos depois, as mãos outrora com unhas roídas, hoje rentes e cortadas, com linhas da palma bem marcadas, retiraram-me dali e me folhearam como quem tenta tocar uma antiga canção nunca inventada.
- Está na hora de você ser devolvido.

Carregado debaixo dos braços, segurado com certa apreensão, vi de longe surgir aquele canto de canário.

- Isso lhe pertence.

Aquelas mãos, outrora de unhas longas e compridas, pintadas como de noiva, agora com garras de felina, de unhas vermelhas, me seguraram com força e sorriso. Mas pude escutar aquela melodia cardíaca inesquecível. Na outra mão havia um novo símbolo, um querido poeta chamado Rubem Alves, amante de Villa Lobos e outros músicos que fazem dançar a alma.

Das mãos longas e finas, Rubem passou para a mão quadrada. Por minha pouca qualidade literária, fui esquecido no banco daquela praça, depois de ouvir deliciosas risadas curativas a servirem como base melodiosa de uma nova sinfonia.

Esta história agora não posso mais contar. Quem sabe Rubem possa terminar este conto, ou quem sabe, aumentar um ponto.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Estações

Foto: Kalu Brum

Às vezes me falta ar. Sou assim de cor vermelha, passional até os fios de cabelos etéricos. Queria, simplesmente, algumas vezes, ver a vida passar e não agir com a paixão que me move. Ver uma formiga a subir na camisa de um desconhecido e simplesmente não retirá-la de lá. Mas eu não consigo.

Talvez dê importância demais para minhas conquistas e queira oferecê-las a preço baixo, esquecendo-me que elas são pérolas tecidas com os fios de cornicópia de minhas lágrimas.

Cada alma deste mundo está em um diferente estágio de consciência. E todos estão em seus lugares certos. Algumas vezes cruzamos com almas queridas em determinada estação e tão logo pegamos o próximo trem para estação mais além. Dói ver a porta fechar, sabendo que foi ele quem lhe deu o mapa para seguir adiante.

Quantas vezes não queremos voltar, mas o trem acelera rápido demais? A nova estação é estranha. Tudo é um eterno recomeçar. Rapidamente descobrimos que aqui e agora é nosso lugar. Até que chega, mais uma vez, a hora de seguir, a hora de tecer mais uma pérola, para a jóia máxima da vida.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Amor Desperto

Para quem escolhe uma vida desperta todos os dias são para celebrar o amor. Dias preenchidos de pequenas felicidades que no final traz a gostosa certeza de conhecer o sabor de estar junto.

Um sorriso na hora do almoço, um carinho inesperado no cangote. Tudo isso faz com que o amor seja real e mais importante que os pequenos obstáculos do cotidiano.

Viver um amor desperto é negar as algemas e celebrar os laços; fechar os olhos para os prazeres e cultivar a espiritualidade; é saber que mesmo diferentes queremos o mesmo: ser melhor a cada dia para experimentar constantemente o poder interior.

Que todos os dias escolha você como meu namorado. Desta forma viveremos um agora e sempre enamorados celebrando o amor em cada detalhe. O amor é este sentimento que nos faz amadurecer e se encantar, como um menino, pela a vida.

Abaixo um poema de fernando Pessoa que gosto muito. Para mim este Deus menino é o Amor.

“No céu era tudo falso, tudo em desacordo com flores e árvores e pedras. No céu tinha de estar sempre sério...

Fugiu para o sol e desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso natural.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me as flores e mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na mão e olha devagar para elas.

A Criança Nova que habita onde vivo
dá-me uma mão a mim e a outra a tudo que existe,
e assim vamos os três pelo caminho que houver, saltando e cantando e rindo e gozando o nosso segredo comum que é o de saber por toda a parte que não há mistério no mundo e que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todas os sons são as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas. (...)

Ele dorme dentro da minha alma e às vezes acorda de noite e brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar.
Põe uns em cima dos outros e bate palmas sozinho sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo e leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano e deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde, para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar até que nasça qualquer dia
que tu sabes qual é.“

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Olhos de Diamante




Tenho olhos de diamante

a ver os fractais de mil e uma

dimensões a bailar d'fronte a luz.


Visto o manto de estrelas

e saio a dançar por céus

de planetas distantes

com suas melodias angélicas

de uma nova frequência.


Caminho como um viajante obstinado

direcionando minha vela para o sopro divino

fazendo curvas para atingir o porto

de onde vim, para onde quero voltar

seguindo Tua voz, Teu suspiro.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Mandala

No círculo infinito
da inquietude de minha alma
Adentrei na mansão sagrada do meu ser
Segui o corredor luminoso das cores pastosas
Vi surgir tanta vida
Quando soprei a poeira da minha morada...

No palácio da divindade que me habita
Vi o reflexo de uma mente luminosa
Ainda enebriada pela existência mundana
Nos desabores de minha casa
Encontrei o jardim sagrado de mim mesma
E saboreei o gosto de estar entre flores
Auroras e rios caudolosos que me levam a cachoeiras
De serpentes

De repente se aprende que futuro e passado
Coexistem com o presente
Embrulhado na frente do papel branco
Esperando a quietude
Para revelar o caminho circular
Até o ponto do infinito
Em que opostos se encontram
Casam-se na dança da criação
Deste instante ou de um lugar distante
Que habito agora.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Para um beija-flor


Foto: Kalu Brum

Sobre as torres cinzentas da avenida sem fios
Caminhei até a fonte de tua essência.

No retrato virtual estavas pousado
Como se compusesse
Um retrato antigo de minha vida

Na cidade iluminada pela inconsciência
Fez-me tua flor,
Cativou-me e do tempo que gastaste
A regar minha existência,
Floresci na primavera do teu olhar.

Por vezes esconde-se ligeiro
Enquanto aguardo tua visita
Outras sorri em minha menina
E inunda meu corpo de uma doce felicidade

Em seu mistério me faço rosa
Dou-te pétalas e espinhos
Sonhos e desesperanças

E assim teço uma história
Nascida fantasticamente incoerente
Que segue por cordas bambas
De uma avenida sem-fios

Bêbada pela vida
Ferida por outros caçadores
Caminho doidivanamente
Seguindo o farol de olhos
Que se fecham para o que é essencial
E se fixam naquilo que nunca será perene.

Sou uma centelha divina
E transformo-me nas cores das primaveras
Suaves e melodiosas

Sou uma alma leve
Tentando vencer a densidade
Dos pensamentos humanos

Segure a minhas mão que posso
Conduzir-te ao verdadeiro paraíso
onde não existem prédios comerciais
bancos, cinzas ou malabaristas

Habito a ilha dos pássaros selvagens
Com seus cantos luminosos e inebriantes
Das fadas coloridas, das borboletas sorridentes
Das flores que sempre em flor
Das primaveras constantes

Meu caminho está iluminado pelas estrelas
Decorado pelas flores, fadas e fantasias
Ele existe para quem
Sabe apreciar
Aquilo que não tem resposta
Nem pergunta

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Pequena Flor

Foto: Kalu Brum

“...eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti única...”
Pequeno Príncipe

Comecei a pensar nessa história sentada em um pequeno asteróide, perdida na escuridão. Batizo-o de PP 010105. Aqueles que comigo estavam saberão porque o chamo assim. Naquele pequeno mundinho que habitei por um tempo, experimentei a inexistência de luz que caracteriza o início e o fim de uma era. Naquela ausência pude então me recriar da forma que desejei. Transformei-me em uma pequena flor ao lado de dois pequenos príncipes. Em cada uma das minhas pétalas, cativaram-me e me fizeram única.

Em um momento em que poderíamos mergulhar na escuridão dos espinhos, sentíamos a doçura das pétalas. Entre melodias e silêncios profundos, tecíamos o laço que para sempre nos unirá, nessa lembrança ardente e doce, de estar perdido e ser encontrado.

Desculpe por tanta filosofia. Um sentimento de urgência cativa-me. Quero cultivar a semente desse momento para dela ver nascer uma flor única. Porque, entre tantos fatos que me passaram despercebido, escolho esse para cativar. E mesmo que existam tantos outros como esse, esse me será eterno.

Poderia contar a história da maneira que me ensinaram as pessoas grandes:

“No dia primeiro de janeiro de 2005, 2 rapazes de 26 e 17 anos, e uma garota de 25 anos, se perderam em uma trilha em ilha grande e foram resgatados à meia noite do segundo dia do ano. Todos passam bem, apesar de terem ficado mais de 12 horas sem alimento e apresentarem leves escoriações.”

Então jamais saberiam da boca da noite que de leve sugava as cores: do céu, da mata e até mesmo as nossas próprias cores e em segundo tudo se tornou um som que se propagava na imensidão e se confundia com nossos próprios pensamentos.

Se contasse essa história como gente grande, nunca haveriam de saber que as estrelas caíram do céu e ficaram ao alcance de nossas mãos - a noite virou o céu escuro e vaga-lumes transformaram-se em estrelas.

Aquela pedra salvadora era nosso planeta que estávamos dispostos a habitar até o sopro do dia. Mas no fundo do nosso coração queríamos ser resgatados da noite, que se parecia com um sonho bom misturado com pesadelo.

Junto com cada bombeiro que nos tirou da escuridão, estava o rosto daqueles que um dia nos resgataram dos piores sonhos, aqueles que acenderam a luz do nosso coração: a face da minha mãe, do meu pai, da minha irmã e até minha própria face de 20 anos atrás. Tudo o que queríamos, naquele momento, era o abraço heróico e mágico daqueles que nos fizeram. Únicos em suas essências porque assim aprendemos a cativá-los e reatamos os nossos próprios laços.

Se quiserem saber dos números, nunca saberão que as estrelas entraram todas elas em mim quando cheguei no meu porto-seguro e escutei a voz Daquela que me resgatou da escuridão da ilusão.

Quero eternizar esse momento como quem plastifica a figura de um livro para que o tempo não a desmanche. Posso até não me ater aos detalhes que todos querem saber. O que serão os dias, a hora, perto dessa essência que experimento com a alma renascida, pequena e eterna.

Se pensarem que por conta dessa história deixarei de mergulhar nas trilhas, enganam-se! Sinto-me mais forte e ao mesmo tempo suscetível. Meu amigo Rubem Alves diz que Deus é perigo, Deus é abismo. Pude experimentar isso nesse oceano, nunca na lagoa. Meu barco quer os perigos do mar, embora saiba que sou apenas um barquinho de papel.

Não me contento com lagoas ou piscinas... Quero partir para habitar meu próprio planeta e na imensidão descobrir que todas as coisas são iguais e especiais porque me cativam.

Agora sei que sou aquilo que cativo.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Teia da Vida


Foto: Kalu Brum

Encontrei-me na teia da vida. E assim deixei a ilusão aracnídea para ser, senão, um fio de madrepérola tecido pela dor da ostra. Além das palavras posso acessar os mais lindos campos de sonhos.

Transformo-me em algo fluido, um não-sei-quê que me faz bailar no vento como uma pena, leve e colorida, que percorre o destino do mundo guiada pelo sopro de Deus. Remeto-me a todo momento para a mesma sensação de me apaixonar todos os dias pela vida, pelo mundo que é magicamente igual e fantasticamente diferente.

Porque cada vez que entro no oceano do mundo, o reflexo se faz de acordo com a minha própria vontade, e, também, está além dela. Ás vezes turbulento, outras tão sereno que mal se distingue céu e terra.

O que encontro em cada dia da minha vida, em cada linha é a certeza fantástica que a teia invisível que me liga ao infinito, transforma-me em todas as coisas do mundo. Em cada uma delas descubro que o amor é aquilo que não tem resposta, nem pergunta, impossível de ser descrito. Amor que se expressa com o som do coração e com o silêncio da alma.
Para você, meu deleite poético proporcionado por Neruda.

O que uma lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados?
Respondo que o oceano sabe.
Por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
Quem as algas apertam em teus braços?

Perguntas mais firmes que uma hora e um mar certos?
Eu sei perguntas sobre a presa branca do narval
e eu respondo contando como o unicórnio do mar, arpado, morre.

Perguntas sobre as plumas do rei-pescador
que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto:
que a vida, em seus estojos de jóias, é infinita como a areia incontável, pura;
e o tempo, entre uvas cor de sangue tornou a pedra lisa encheu a água-viva de luz,
desfez o seu nó, soltou seus fios musicais de uma cornicópia
feita de infinita madrepérola.

Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão
e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja.
Caminho como tu, investigando as estrelas sem fim
e em minha rede, durante a noite, acordo nu.
A única coisa capturada é um peixe dentro do vento.

terça-feira, 26 de maio de 2009

O Menino na Lua

Foto: Kalu Brum

Enquanto fitava o céu
Salpicado de estrelas e canções
Mergulhei no azul de seus olhos
A refletir o brilho da lua.
Em teus raios nectáreos
encontrei esta poesia...

Avistei- te delicadamente sentado.
Em sua alma
Vive um menino,
Equilibrado na ponta da lua
O menino pescava ilusões.

Foram tantas translações
De suas lágrimas fez-se
As estrelas cintilantes
Os meteoros e cometas

Ancorado em suas certezas etéreas
Pescou tantos sonhos
E nunca se cansou
Porque sabia
Que o oceano celeste
Ainda lhe revelaria um presente

Pescando sonhos de menino
Sentou-se sobre a eternidade
Nem o conforto, nem o brilho efêmeros
Lhe eram suficientes

E quando o tempo, as estrelas
Já pareciam semelhantes e opacas
O menino pescou o que procurava

Um coração menino surgiu na ponta
De seus questionamentos e buscas
Ele agora tornou-se um sol reluzente
E o menino voa até
onde seus sonhos de menino podem sonhar

Alado não precisa mais da lua
Dos astros ou estrelas
O menino sentado na lua
Pescou sua liberdade
De saber que o maior presente
Já lhe pertence e as ilusões
São peixes cegos que habitam a escuridão.

Hoje descobre que destino é o encontro
Com a certeza que os milagres
São as estrelas, os astros,
A lua e todo espaço que cabe
No vento da consciência

Com novas asas, o menino
Habita todos os espaços
E eu o encontro
Dentro de seus olhos
Que refletem a lua
a acolher meu menino
que pesca verdades.

Escrevi este poema há muitos meses. Tempo pequeno se comparado a eternidade de mudanças que aconteceram em nossas vidas. Foram tantas decobertas e mergulhos no espaço sagrado da verdade. Nos seus braços encontrei a paz de meu próprio coração. Cada dia ao seu lado aprendo uma nova lição e o que tenho feito, desde o dia em que encontrei seus olhos é agradecer pelo maravilhoso presente que recebi.

Um jardim precisa ser cuidado com muita dedicação: retirar as ervas-daninhas, regar as flores e proteger as sementes. Minha intenção desde o dia que decidi unir-me a você nesta jornada rumo àquilo que mais elevado, é cuidar para que nosso jardim floresça, sempre!

Sei que existirão dias de sol, dias nublados. Mas se mantivermos nosso olhar para Deus, O reconheceremos em cada um destes estados.



Agradeço com o coração cheio de amor e gratidão, com os olhos cheios de lágrimas, por aceitar ser meu consorte nesta jornada que iniciamos. Eu te amo do fundo do meu coração! Obrigada por você existir...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Contentamento


Foto: Kalu Brum

Todo ser humano busca o amor e a alegria. Algumas vezes de maneira equivocada encontramos no mundo. Fico observando a alegria efêmera e eufórica das pessoas. Tão diferente do sentimento de contentamento que experimento quando medito com meu filho no colo, ou quando canto pela manhã.

É uma delícia este estado de alegria. A alegria é sinal de coragem. É quando você decide ver a luz mesmo existindo sombras. Por isso, agradeça por sua coragem. Coragem por dentre tantas opções escolher mergulhar fundo na caverna de seu coração para experimentar o divino contentamento. Coragem de afastar-se das negatividades e transformar as adversidades em crescimento.

Siga as ondas de contentamento e deixe que leve você ao seu coração. Como se estivesse nadando em um mar calmo e uma onda levasse você até a areia da praia. Deixe que sua respiração, como uma brisa quente que toca seu Ser lhe conduza para experimentar o contentamento de estar dentro do seu próprio coração.

Com grande contentamento me despeço de vocês e que possamos experimentar o contentamento em todos os momentos de nossas vidas e levar nossa alegria verdadeira pelo mundo.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Coração

Foto: Kalu Brum

O coração já está lá, porque ali é a morada de Deus. Quando nascemos dia a dia nos afastamos da divindade que nos habita, então, norteados pelos desejos e sentidos, esquecemos de parar e ouvir o indescritível e silencioso som que ecoa no espaço posterior à expiração e anterior a nova inspiração.

A grande ilusão nos leva para mares turbulentos, sem direção e tantas vezes batemos nas pedras acreditando ser aquela a real direção. A meta elevada é o farol que guia nosso barco, o Guru aquele que nos ensina a navegar e as escrituras, nosso remo e vela.

Antes de encontrar minha meta elevada e entregar-me ao vento de Deus, confiando plenamente em Sua condução, naveguei por mares muito turbulentos.

Sentia que me faltava uma orientação para minha vida. Então pedi por um caminho espiritual e sabedoria para encontrá-lo. Logo em seguida perdi meu emprego, terminei meu noivado e fiquei pensando: Deus, para onde estou sendo levada?

Mas meu coração já estava lá e pôde contemplar, antes do meu intelecto, que por mais tortuosa que parecesse aquela trilha era ela que me levaria para luz.

Então encontrei meu Guru e da escuridão aprendi a caminhar na luz, confiante que no espaço do coração moram todas as respostas, até mesmo para as perguntas que nunca ousei fazer.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Pensamentos

Foto: Kalu Brum

A verdade precisa ser sentida dentro do coração. A Verdade não pode ser jogada ao campo das idéias. Hoje enquanto meditava, comecei a escutava na minha cabeça:

- Você pensa demais!
- Você pensa demais!
- Você pensa demais!

Essa frase foi ficando tão alta que por um instante pensei que iria enlouquecer. Comecei a chorar e pedir :

- Por favor, meu coração, faça-me parar de pensar.

Foi neste instante que comecei a perceber que além da frase, havia um outro som, uma batida. Esse ruído tornou-se mais forte. Tratava-se da batida de meu próprio coração. A medida que me concentrava neste som, notei que entre as duas batidas havia um espaço de silêncio.

Focada neste silêncio senti a pausa da minha existência. Minha respiração, meu coração pararam. Fui invadida por uma sensação de inexistência. Eu já não mais existia. Não era nem meu coração, nem mente, nem respiração. Transformei-me no vazio e na completude

Após retornar senti como se caminhasse silenciosamente até o alto de uma montanha. Deitei e fiquei olhando para o céu, sem emitir uma palavra sequer, apenas apreciando o movimento das nuvens.

As nuvens são como nossos pensamentos: Às vezes escuras, baixas e assustadoras; outras leves e gostosas como algodão doce, tão bonitas e macias que surge aquela vontade de se deitar sobre elas; às vezes temos pensamentos rápidos, inconstantes...

As nuvens têm as formas do nosso pensar. Alguns esculpem anjos, outros demônios.
Mas toda nuvem, assim como nossos pensamentos, servem apenas para emoldurar o céu, que sempre está lá...

As nuvens são inconstantes e não se pode apostar a sorte nelas. Mas o céu é a certeza, a constância. Olhar por céu amplia nossa dimensão, nos faz perceber a pequenez e a grandeza de nós. E justamente no momento que posso estar além das nuvens/pensamentos é que posso sentir a leveza da minha existência.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Esquina

Foto: Kalu Brum

Não sei se lhe falei da minha casa. Apareceu um terreno na rua da felicidade, esquina com a Rua do amor. Um terreno cheio de flores as quais tenho cultivado com todo o carinho e apreço. São canteiros coloridos e perfumados que exibem transcendência, maços de resolução, universalidade, sacralidade e tolerância.

Este canteiro deu-me uma nova visão da vida. Desde seu florescimento aprendi a deitar sobre o vento e deixar-me ser levada por ele. Ouço os pássaros e sigo por rumos desconhecidos e por isso repletos de surpresas agradáveis... A beleza do jardim tem atraído pássaros raros, com um canto tão melodioso, capazes de embalar a alma de todos os seres que habitam minha casa.

Construí a minha casa com os materiais mais sagrados: paredes de vento, céu de estrelas, lustre de sol e lua, chão ladrilhado de terra fértil. E por onde vou encontro a esquina da felicidade com o amor... Por isso minha casa muda de roupa para cada festa de viver, em todos os salões do mundo. Assim tenho chão de grama, duna ou lama; Paredes de vento frio ou quente, os mais diversos aromas e todos os jardins do mundo.

Acho que realmente incorporei a minha identidade beija-flor, tamanha a velocidade das mudanças que tenho vivido... E a remoção cuidadosa das montanhas tem ecoado nos meus e gerado grande felicidade...

Um mundo absolutamente diferente de tudo que já vivi. Aprendi a embalar-me pela certeza gloriosa do retorno E...terno, me redescobrindo em cada ausência plena... A sensação não é outra de reconciliação com a vida, que habita a esquina do amor com a felicidade.

Hoje sou feita de penas, vento, terra, fogo, água e éter... eternamente viva na esquina do amor com a felicidade...